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A meditação com o Senhor Verde

O Senhor e a Senhora Verde nos ajudam a viver de maneira mais sábia e feliz

A Senhora e o Senhor Verde são os espíritos guardiões das matas. Detentores do poder e da sabedoria da natureza, eles nos orientam espiritualmente e nos ensinam a ter mais discernimento. Porém, como são energias puras, não aparecem diante de nossos olhos físicos – e a única maneira de falar com eles é por meio da meditação, como essa que ensinamos a seguir: 

  1. Recolha-se a um local tranquilo e silencioso, onde não corra o risco de ser interrompido(a);
  2. Feche os olhos e imagine-se caminhando pelo campo. Sinta o cheiro do mato e o calor do Sol. Respire profundamente por três vezes;
  3. Estenda o braço e imagine que está tocando o tronco áspero de uma árvore. Peça para ela conversar com você;
  4. Imagine um homem velho, baixo e magro, de ombros curvados, olhos azuis e cabelos brancos, se aproximando lentamente;
  5. Vestido apenas com folhas de árvores, ele tem um ar simples e majestoso ao mesmo tempo. Sorrindo, ele lhe diz: “Eu vim para ser seu mestre. E, no momento certo, o levarei à presença da Senhora Verde”;
  6. Sorria para ele e faça uma pergunta. A resposta não virá imediatamente, e sim por meio de um sonho ou uma ideia;
  7. Imagine que o Senhor Verde tira do bolso um presente para você. Pode ser uma lasca de madeira, um ramo, uma semente. Agradeça a gentileza e diga que deseja voltar à floresta para conhecer a Senhora Verde;
  8. Imagine-se indo para longe do bosque. Respire profundamente e abra os olhos;
  9. Medite outra vez no dia seguinte. Ao visualizar o Senhor Verde, mostre o presente que ele lhe deu e peça para conhecer a Senhora Verde;
  10. Siga o Senhor Verde pelo bosque florido e perfumado até chegar numa clareira. Sentada sobre um tronco de árvore caído, está uma mulher alta, de cabelos longos e dourados, cercada por lebres, texugos, esquilos e outros animais. Observe o quanto ela é bonita, com seu vestido florido e um longo manto verde;
  11. Sente-se aos pés dela e do Senhor Verde. Converse com ambos e peça ensinamentos. Quando ouvir um barulho forte, semelhante ao grito de uma ave assustada, desvie o olhar;
  12. Ao fitar novamente o tronco, você perceberá que a Senhora Verde se retirou, deixando uma pluma brilhante de presente para você. Guarde a pluma, que será seu passaporte para meditações futuras, e retome o caminho de casa, acompanhado pelo Senhor Verde. Quando sair do bosque, despeça-se do Senhor Verde;
  13. Respire profundamente e abra os olhos. No decorrer dos dias, as respostas e os ensinamentos que você pediu virão por meio de sonhos e pensamentos. 

Para saber mais: Elementos da Magia Natural, de Marien Green, Editora Ediouro.

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Espiritualidade

Ancestralidade e consciência

Novos valores para um novo tempo

(por Brendan Orin)

Quando nos decidimos por uma prática religiosa pagã, temos inevitavelmente uma visão não-pagã dela. Só se conhece de verdade aquilo que já foi vivido.

A imagem que normalmente se tem é de uma religiosidade descentralizada, em que tudo é permitido, sem muitas obrigações devocionais e para com a comunidade. Mas nem em parte é assim. Os praticantes do paganismo têm os seus deveres, responsabilidades e hierarquias como os teriam em qualquer outra religião, pois é isso o que caracteriza e formata uma religião. Ao citar hierarquia, me refiro ao sentimento profundo que nutrimos por aqueles que vieram antes de nós. Pagãos devem honra e confiança incondicionais àqueles que trilharam o caminho antes, inclusive se eles forem pessoas mais jovens em termos civis.

Acreditamos que só somos hoje o que somos e temos a amplitude de pensamento que temos porquê estas pessoas, com seus erros e acertos fizeram com que o caminho fosse tal que nos levasse a encontrá-lo. O problema está em consentir que muitos erros são necessários para a evolução, sem depois utilizar isso como justificativa para as nossas próprias falhas e derrotas. Há que se lutar então para que não aconteça esse desserviço que pode tornar tão opaca a beleza de nossos atos.

A idade que respeitamos é a idade do espírito; é a sabedoria que vem com o tempo, e não somente o conhecimento técnico adquirido. Esta noção de ancestralidade pode ser aplicada de maneira mútua, aonde um ser respeita o outro em partes diferentes da vida. Aprender um com o outro é sempre a melhor forma de respeito, pois um médico tem muito a aprender sobre as ervas curadoras com a sua avó, da mesma forma em que ela pode aprender com seu neto a melhor maneira de utilizar-se de remédios alopáticos para o seu diabetes.

No dia em que cada ser humano agir dessa maneira, o mundo será mais completo e acolhedor, com lugar para todos, jovens e velhos, homens e mulheres, com suas respectivas funções e papéis na sociedade. Essa nova era terá menor número de suicidas, menos depressão e outras doenças psicológicas que são causadas por séculos de uma cultura castradora e patrilinear, que se importa mais com as aparências que com as emoções e que deixa tudo para ser resolvido amanhã, nunca hoje, criando assim uma bomba que esteve prestes a explodir por muitos anos. Infelizmente, explodiu.

A hierarquia do paganismo é vista de muitas formas. Dentro da Bruxaria, por exemplo, um iniciado de uma Tradição específica não é visto como tal dentro de uma comunidade pertencente a outra Tradição; ele tem o devido respeito por tudo o que fez pela Arte e passou em sua vida mágica, mas ainda assim para aquele grupo sua iniciação não é válida. Porém, para os novos iniciados e aqueles que ainda se encontram em programa de treinamento dentro da sua comunidade, ele pode ser até mesmo um Elder (nome que se dá a uma pessoa que cumpriu todos os estágios em uma Tradição, significa Ancião). Cabe a cada um respeitar o espaço do outro com suas crenças e práticas, e no final de tudo resta a união e a amizade, pois todos são pagãos e no fundo cultuadores de um mesmo Sagrado: a Deusa

Um Bruxo Solitário pode ver essa hierarquia em si mesmo, pois ele é seu próprio Sacerdote. A hierarquia existe na natureza, e é necessária para uma compreensão mais abrangente das responsabilidades e do papel do nosso eu. O Paganismo preza por formar não sacerdotes, mas pessoas melhores, que sejam dignas do sacerdócio. Isso acontece em todas as religiões de Mistério. Todo rito iniciático visa colocar o indivíduo em contato com um Segredo, que é algo mantido por um grupo ou Tradição, mas para que através deste a pessoa em questão vislumbre o Mistério.

Este por sua vez é o contato pessoal e intransferível que se tem com os Deuses, no qual nenhuma experiência é igual a outra, e não há como explicar o que se sente no momento em que se consuma. Simplesmente o é. O toque da Divindade pode acontecer com aqueles que escolheram aprender em uma comunidade ou trilhar um caminho solitário, e uma escolha não invalida a outra.

Nós praticantes das Religiões da Terra somos responsáveis não somente pela continuidade do culto dos Deuses Antigos, mas pela salvaguarda de todo ser vivente e da saúde do Planeta, que é nossa casa, e portanto tudo o que essa salvaguarda envolve. Nosso compromisso é com a Deusa, e além dos anuais ritos solares e lunares, ritos de honra aos elementos, Deuses, espíritos animais, devemos a Ela uma atitude. Um Sacerdote da Deusa não permite que a vida pereça como tem perecido; ao menos não descansa até que seus esforços se tornem realidade.

Mudar a forma de pensar das pessoas já é multiplicar essa ideia e dar um grande passo. Todo pagão é ou deveria ser um ativista; seja político, ecológico, social, enfim. Somos os moldadores da realidade, e temos em nossas mãos o que é preciso para tal mudança. Esta ferramenta é o simples fato de que temos a consciência desperta para a realidade atual da natureza. A nós cabe acordar os que ainda estão alienados e pouco se importando com este problema. É o preço que se paga pelo saber: nos tornamos responsáveis pelos atos daqueles que não sabem.

Muitos pagãos hoje têm um cerne de prática muito fiel àquilo que foi praticado pelos povos antigos, porém pouco ecológico no contexto ambiental em que nos encontramos hoje. Uma oferenda de frutas e pães ao final de um rito, deixada aos pés de uma frondosa árvore no meio de uma floresta pode causar problemas incomensuráveis para o ecossistema do local.

Um pequeno quati ou esquilo pode se acostumar com essa comida fácil, e depois do fim do estoque não querer mais “caçar”; dois animais maiores, como porcos selvagens, podem travar uma batalha sangrenta pelo alimento; a oferenda pode apodrecer e levar para a árvore um fungo que a destruirá de dentro para fora; as sementes das frutas podem brotar e trazer espécies que não são naturais à floresta, espécies estas que podem se alastrar e retirar o espaço da mata nativa, além de modificar o ar, o solo, a umidade, e o alimento disponível para os animais residentes, que inclusive podem ser alérgicos aos componentes deste (este último caso acontece com jaqueiras na Floresta da Tijuca – RJ – as árvores estão sendo dolorosamente sacrificadas por engenheiros que a todo custo tentam manter a salubridade e o bom funcionamento do ecossistema nativo).

Isso tudo acontece porque os limites territoriais das vegetações e animais foram reduzidos pelas metrópoles. Ao invés de oferecermos frutos e outros elementos aos Deuses e Espíritos da Natureza, podemos levar vassouras e sacos de lixo para limpar a área de detritos e restos deixados por humanos (copos descartáveis, papel, latinhas de refrigerante, embalagens de qualquer tipo, entre outros que sempre são encontrados quando se procura). Os Deuses da floresta ficam muito mais agradecidos desta forma, sem sombra de dúvida.

Deixe a oferenda se tornar algo simbólico feito de maneira regrada e consciente, preferencialmente dentro de nossas casas. Faça uma campanha de conscientização para a coleta seletiva em seu bairro. Limpe um córrego ou um terreno baldio. Torne-se membro de um programa de alfabetização para adultos. Converse com as crianças de sua família sobre a importância de racionar a água. Vá trabalhar de bicicleta, ou pelo menos dois dias da semana dê folga ao seu carro e use transporte público. Adote um animal abandonado, plante uma árvore em seu quintal. Adote uma criança e além de um futuro, dê a ela amor e carinho, pois ela também é a Deusa, e faz parte da mesma origem ancestral de sangue que você, eu e todos os seres humanos.

Mas faça, e não mantenha essa ideia apenas no papel. A função do pagão é restaurar o que foi perdido e degradado de maneira ininterrupta e desprovida de escrúpulos pelos nossos antepassados e contemporâneos. Contribua, seja útil, faça a sua vida valer a pena, e que os filhos de nossos filhos conheçam seu nome pela suas grandes vitórias.

Muitas vezes temos que aprender não a perdoar, mas a pedir perdão, pois temos o costume de esquecer que também magoamos as pessoas; não somos nós os únicos que sentimos dor, solidão ou decepções. A Terra e todo o seu mundo e tesouro não confiam mais em nós, e nem deveriam, pois abusamos e saímos do limite. Temos que restabelecer o contato com a Natureza de forma pacífica, honrosa e sagrada, para conquistarmos sua confiança novamente.

É necessário esse trabalho de resgate do poder e honra ancestral, pois apenas ao trabalharmos nosso interior podemos executar mudanças válidas no mundo exterior. Pretendo abordar esse tema mais profundamente em um outro momento.

Deixo aqui um convite e um desafio. Um convite para viver em um mundo melhor, uma sociedade mais consciente, olhar para um grande feito e se sentir responsável por ele, e ter a oportunidade de começar tudo isso de dentro pra fora. E um desafio em forma de pergunta para o nosso egoísmo mais profundo: existe a coragem necessária para sermos humildes novamente?

Bênçãos da Senhora da Face Estrelada,
Brendan

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Pecados

(por Brendan Orin)

Não há perdão para os filhos da Deusa, pois para Ela não há pecados. Tudo é uma questão de valores, e aplicação de devida consciência e responsabilidade. 

Nossa sociedade a cada momento dita como devemos ou deveríamos ser, nos tornando escravos de suas próprias metas capitalistas e desumanas. Certos apontamentos que nos são feitos todos os dias deveriam ser questionados. Os famosos Sete Pecados cristãos são um bom exemplo. 

Não é em todos os casos que o Orgulho é ruim, ou mesmo a Vaidade ou a Inveja. Todos os sentimentos que acometem a vida do homem tem seu lado bom e ruim. Uma pessoa que só nutre sua Caridade, Honestidade e Compaixão, com certeza terá sua consciência limpa, mas seu caminho estará cheio de traições e trapaças. 

O Altruísmo total é uma forma de colocar-se em um pedestal, de dizer que se é melhor do que aqueles que não praticam ou não podem praticar tanta abnegação. A Misericórdia em excesso pode fazer com que sejamos sempre boicotados – não adianta pensarmos que isso eleva nosso espírito, pois bem sabemos que a realidade é outra: sermos injustiçados sempre deixa marcas e causa Mágoas absurdas. Somos animais, e como os animais sentimos selvagens instintos de Vingança e Raiva, que devem ser transformados para que não se tornem em problemas maiores, porém que não devem ser completamente ofuscados, visto que são reações naturais do ser humano enquanto animal. 

Quando nos sentimos rejeitados pelo mundo, ou pior, quando realmente o somos (quando não temos o devido reconhecimento pelo nosso trabalho, quando somos depreciados por aqueles que amamos, entre outras situações que atormentariam a qualquer um), o Orgulho é que faz com que nós mesmos vejamos o quanto somos importantes, e o quanto fazemos pelo mundo. Quando precisamos nos livrar de uma situação em que estamos sendo sugados por pessoas ou situações que não nos dão valor algum, quando trabalhamos para quem não se importa com isso, quando fazemos de todo o nosso orçamento mensal ajuda para outras pessoas e nada nos sobra, é o Egoísmo que nos protege e nos lembra que antes de mais ninguém no mundo, precisamos de nós mesmos. Quando vemos crescimento por todos os lados e almejamos uma nova posição social, um novo bem, um novo amor ou o que seja, é a Ambição que nos rodeia e dá forças. Quando decidimos colocar como meta profissional algo que desejamos e outra pessoa também deseja, é uma faceta boa da Inveja, que poderíamos chamar de competição sadia, que surge em nosso coração – e dessa relação podem surgir grandes histórias de vida, grandes laços de amizade e companheirismo, pois quando vemos nossos rivais como fonte de renovação de idéias e não como inimigos, aprendemos mais do que poderíamos aprender com qualquer cúmplice. Vaidade pode ser a cura para a Depressão. Um pouco de Avareza pode fazer com que tenhamos reservas para resolvermos um sério problema no futuro. 

O que devemos aprender é a dosar, como a carta Temperança do Tarot. Ela nos ensina que tudo o que há deve existir em uma determinada medida. Não haveria dia, se não fosse a noite; não há som sem silêncio. Assim são os sentimentos e valores que regem nossas vidas. Sempre que analisamos uma situação por todos os ângulos, podemos perceber que em determinadas situações ser simplesmente humano, ou seja, ser incompleto em sua essência, é aproveitar todas as situações as quais a vida pode nos expor para nosso próprio aprendizado. 

Viva. Viva e deixe viver, sempre. Há momentos para tudo na vida, não limite seu coração. Se permita. Se permita a chorar a morte de seus pais, se permita ao luto por amigos, se permita a sentir raiva de alguém que lhe traiu, se permita a sentir que determinada situação não foi justa. Aproveite cada momento para degustar cada nuance de seus sentimentos, sejam eles quais forem. O que não podemos é guardar certas emoções pelo simples fato de que a sociedade as recrimina. Isso dá câncer. Podemos agir com consciência, e fazer diferente para aquelas pessoas que nos prejudicaram, para que assim elas aprendam com seus próprios erros; em outras palavras, sem deixarmos de dar o devido valor à dor que nos foi causada podemos deixar de causar mais dor, fazendo com que o mundo seja um lugar mais brando, equilibrado e consciente.   

Há também o outro lado, como aqueles valores que muitos de nós Pagãos julgamos Cristãos, e afirmamos que por isso devem ser negligenciados. Não creio que Bondade, Perdão, Arrependimento sejam valores exclusivos do Cristianismo (se fossem, qual seria o problema? são valores essenciais para a boa convivência do homem com o mundo), e sim que são valores universais. Nossa Lei Máxima, “Faça o que quiser, desde que não prejudique nada ou ninguém.”, não recrimina atos honrados como adoção, acolhimento de desabrigados, doações de alimentos aos famintos – muito pelo contrário, eleva tais atos. Religiões anteriores ao Cristianismo, como o Budismo Tibetano ou algumas ramificações do Hinduísmo, sempre ostentaram a bandeira da PAZ. 

Se vamos aprender um dia a cultivar os sentimentos de modo a aproveitar todo o seu potencial, não posso afirmar, mas posso dizer que permitir-se sentir com o coração exatamente aquilo que vem à tona é necessário. Assim, o Remorso, a Falsidade, a Vergonha, a Auto-comiseração, a Culpa e outros sentimentos que são totalmente nocivos serão extintos, pois não temos o que temer se temos força suficiente para aprendermos a cada dia e para evitarmos os erros do passado, sempre almejando uma melhor atitude no amanhã. Ser melhor a cada dia, sem deixar de ser animal e humano. 

Bênçãos de Aradia,
Brendan