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Espiritualidade

Ancestralidade e consciência

Novos valores para um novo tempo

(por Brendan Orin)

Quando nos decidimos por uma prática religiosa pagã, temos inevitavelmente uma visão não-pagã dela. Só se conhece de verdade aquilo que já foi vivido.

A imagem que normalmente se tem é de uma religiosidade descentralizada, em que tudo é permitido, sem muitas obrigações devocionais e para com a comunidade. Mas nem em parte é assim. Os praticantes do paganismo têm os seus deveres, responsabilidades e hierarquias como os teriam em qualquer outra religião, pois é isso o que caracteriza e formata uma religião. Ao citar hierarquia, me refiro ao sentimento profundo que nutrimos por aqueles que vieram antes de nós. Pagãos devem honra e confiança incondicionais àqueles que trilharam o caminho antes, inclusive se eles forem pessoas mais jovens em termos civis.

Acreditamos que só somos hoje o que somos e temos a amplitude de pensamento que temos porquê estas pessoas, com seus erros e acertos fizeram com que o caminho fosse tal que nos levasse a encontrá-lo. O problema está em consentir que muitos erros são necessários para a evolução, sem depois utilizar isso como justificativa para as nossas próprias falhas e derrotas. Há que se lutar então para que não aconteça esse desserviço que pode tornar tão opaca a beleza de nossos atos.

A idade que respeitamos é a idade do espírito; é a sabedoria que vem com o tempo, e não somente o conhecimento técnico adquirido. Esta noção de ancestralidade pode ser aplicada de maneira mútua, aonde um ser respeita o outro em partes diferentes da vida. Aprender um com o outro é sempre a melhor forma de respeito, pois um médico tem muito a aprender sobre as ervas curadoras com a sua avó, da mesma forma em que ela pode aprender com seu neto a melhor maneira de utilizar-se de remédios alopáticos para o seu diabetes.

No dia em que cada ser humano agir dessa maneira, o mundo será mais completo e acolhedor, com lugar para todos, jovens e velhos, homens e mulheres, com suas respectivas funções e papéis na sociedade. Essa nova era terá menor número de suicidas, menos depressão e outras doenças psicológicas que são causadas por séculos de uma cultura castradora e patrilinear, que se importa mais com as aparências que com as emoções e que deixa tudo para ser resolvido amanhã, nunca hoje, criando assim uma bomba que esteve prestes a explodir por muitos anos. Infelizmente, explodiu.

A hierarquia do paganismo é vista de muitas formas. Dentro da Bruxaria, por exemplo, um iniciado de uma Tradição específica não é visto como tal dentro de uma comunidade pertencente a outra Tradição; ele tem o devido respeito por tudo o que fez pela Arte e passou em sua vida mágica, mas ainda assim para aquele grupo sua iniciação não é válida. Porém, para os novos iniciados e aqueles que ainda se encontram em programa de treinamento dentro da sua comunidade, ele pode ser até mesmo um Elder (nome que se dá a uma pessoa que cumpriu todos os estágios em uma Tradição, significa Ancião). Cabe a cada um respeitar o espaço do outro com suas crenças e práticas, e no final de tudo resta a união e a amizade, pois todos são pagãos e no fundo cultuadores de um mesmo Sagrado: a Deusa

Um Bruxo Solitário pode ver essa hierarquia em si mesmo, pois ele é seu próprio Sacerdote. A hierarquia existe na natureza, e é necessária para uma compreensão mais abrangente das responsabilidades e do papel do nosso eu. O Paganismo preza por formar não sacerdotes, mas pessoas melhores, que sejam dignas do sacerdócio. Isso acontece em todas as religiões de Mistério. Todo rito iniciático visa colocar o indivíduo em contato com um Segredo, que é algo mantido por um grupo ou Tradição, mas para que através deste a pessoa em questão vislumbre o Mistério.

Este por sua vez é o contato pessoal e intransferível que se tem com os Deuses, no qual nenhuma experiência é igual a outra, e não há como explicar o que se sente no momento em que se consuma. Simplesmente o é. O toque da Divindade pode acontecer com aqueles que escolheram aprender em uma comunidade ou trilhar um caminho solitário, e uma escolha não invalida a outra.

Nós praticantes das Religiões da Terra somos responsáveis não somente pela continuidade do culto dos Deuses Antigos, mas pela salvaguarda de todo ser vivente e da saúde do Planeta, que é nossa casa, e portanto tudo o que essa salvaguarda envolve. Nosso compromisso é com a Deusa, e além dos anuais ritos solares e lunares, ritos de honra aos elementos, Deuses, espíritos animais, devemos a Ela uma atitude. Um Sacerdote da Deusa não permite que a vida pereça como tem perecido; ao menos não descansa até que seus esforços se tornem realidade.

Mudar a forma de pensar das pessoas já é multiplicar essa ideia e dar um grande passo. Todo pagão é ou deveria ser um ativista; seja político, ecológico, social, enfim. Somos os moldadores da realidade, e temos em nossas mãos o que é preciso para tal mudança. Esta ferramenta é o simples fato de que temos a consciência desperta para a realidade atual da natureza. A nós cabe acordar os que ainda estão alienados e pouco se importando com este problema. É o preço que se paga pelo saber: nos tornamos responsáveis pelos atos daqueles que não sabem.

Muitos pagãos hoje têm um cerne de prática muito fiel àquilo que foi praticado pelos povos antigos, porém pouco ecológico no contexto ambiental em que nos encontramos hoje. Uma oferenda de frutas e pães ao final de um rito, deixada aos pés de uma frondosa árvore no meio de uma floresta pode causar problemas incomensuráveis para o ecossistema do local.

Um pequeno quati ou esquilo pode se acostumar com essa comida fácil, e depois do fim do estoque não querer mais “caçar”; dois animais maiores, como porcos selvagens, podem travar uma batalha sangrenta pelo alimento; a oferenda pode apodrecer e levar para a árvore um fungo que a destruirá de dentro para fora; as sementes das frutas podem brotar e trazer espécies que não são naturais à floresta, espécies estas que podem se alastrar e retirar o espaço da mata nativa, além de modificar o ar, o solo, a umidade, e o alimento disponível para os animais residentes, que inclusive podem ser alérgicos aos componentes deste (este último caso acontece com jaqueiras na Floresta da Tijuca – RJ – as árvores estão sendo dolorosamente sacrificadas por engenheiros que a todo custo tentam manter a salubridade e o bom funcionamento do ecossistema nativo).

Isso tudo acontece porque os limites territoriais das vegetações e animais foram reduzidos pelas metrópoles. Ao invés de oferecermos frutos e outros elementos aos Deuses e Espíritos da Natureza, podemos levar vassouras e sacos de lixo para limpar a área de detritos e restos deixados por humanos (copos descartáveis, papel, latinhas de refrigerante, embalagens de qualquer tipo, entre outros que sempre são encontrados quando se procura). Os Deuses da floresta ficam muito mais agradecidos desta forma, sem sombra de dúvida.

Deixe a oferenda se tornar algo simbólico feito de maneira regrada e consciente, preferencialmente dentro de nossas casas. Faça uma campanha de conscientização para a coleta seletiva em seu bairro. Limpe um córrego ou um terreno baldio. Torne-se membro de um programa de alfabetização para adultos. Converse com as crianças de sua família sobre a importância de racionar a água. Vá trabalhar de bicicleta, ou pelo menos dois dias da semana dê folga ao seu carro e use transporte público. Adote um animal abandonado, plante uma árvore em seu quintal. Adote uma criança e além de um futuro, dê a ela amor e carinho, pois ela também é a Deusa, e faz parte da mesma origem ancestral de sangue que você, eu e todos os seres humanos.

Mas faça, e não mantenha essa ideia apenas no papel. A função do pagão é restaurar o que foi perdido e degradado de maneira ininterrupta e desprovida de escrúpulos pelos nossos antepassados e contemporâneos. Contribua, seja útil, faça a sua vida valer a pena, e que os filhos de nossos filhos conheçam seu nome pela suas grandes vitórias.

Muitas vezes temos que aprender não a perdoar, mas a pedir perdão, pois temos o costume de esquecer que também magoamos as pessoas; não somos nós os únicos que sentimos dor, solidão ou decepções. A Terra e todo o seu mundo e tesouro não confiam mais em nós, e nem deveriam, pois abusamos e saímos do limite. Temos que restabelecer o contato com a Natureza de forma pacífica, honrosa e sagrada, para conquistarmos sua confiança novamente.

É necessário esse trabalho de resgate do poder e honra ancestral, pois apenas ao trabalharmos nosso interior podemos executar mudanças válidas no mundo exterior. Pretendo abordar esse tema mais profundamente em um outro momento.

Deixo aqui um convite e um desafio. Um convite para viver em um mundo melhor, uma sociedade mais consciente, olhar para um grande feito e se sentir responsável por ele, e ter a oportunidade de começar tudo isso de dentro pra fora. E um desafio em forma de pergunta para o nosso egoísmo mais profundo: existe a coragem necessária para sermos humildes novamente?

Bênçãos da Senhora da Face Estrelada,
Brendan