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A geometria da personalidade

O eneagrama nos dá condições de avaliar nosso modo de ser e de nos relacionar com o mundo. 

Cadu Oliveira

Qual é o seu número? Para milhares de pessoas em todo o mundo, essa pergunta tem hoje um significado bem preciso: ela se refere às características de sua personalidade, que podem ser relacionadas aos nove pontos assinalados num círculo por nove linhas retas que se cruzam. Conhecida por eneagrama, essa figura é vista como um instrumento valioso para o conhecimento da nossa personalidade e para desvendar as motivações dos nossos atos. Círculos muito diferentes partilham essa opinião: o Vaticano, a CIA (o serviço de informações dos Estados Unidos), psiquiatras e psicólogos, administradores de empresas e membros de ordens iniciáticas. O entusiasmo pelo eneagrama é tal que, nos Estados Unidos, os livros sobre o assunto já venderam mais de um milhão de exemplares.

Que poder se encerra nessa figura milenar, trazida para o Ocidente pelo ocultista armênio George Gurdjieff nas primeiras décadas do século 20? “O poder do conhecimento e da transformação”, responde o filósofo chileno Christian Paterham, fundador do IDHI (Instituto para o Desenvolvimento Humano Integral) e adepto da doutrina de Gurdjieff. “O eneagrama revela o traço principal da nossa personalidade e nos indica o caminho para modificá-lo no que ele tem de negativo”. Paterham conta que as sensações e os comportamentos, tanto os positivos quanto os negativos, são agrupados segundo nove tipos de personalidade correspondentes aos números do eneagrama. Cada número descreve uma maneira obsessiva de encarar a vida, cristalizada desde a infância, que deve ser neutralizada para que se manifestem aos aspectos mais positivos daquele tipo de personalidade. “O eneagrama mostra às pessoas de que modo elas veem a realidade, e que estão sofrendo porque permanecem presas a essa única perspectiva. E em seguida indica os meios para ampliar essa visão, captar outros aspectos da realidade e por fim ao sofrimento. Porque, afinal, o objetivo do conhecimento e da transformação de si mesmo é ter uma vida completa e feliz”. 

Nas linhas seguintes você vai conhecer os nove tipos de personalidade associados aos números do eneagrama. Vai conhecer também os procedimentos que reforçam a maneira obsessiva de ver o mundo e o modo de neutralizá-los, para que se manifeste toda a riqueza do seu verdadeiro ser.

Os nove tipos de personalidade

Procure identificar seu número, sozinho ou com ajuda dos seus amigos íntimos

1. O Juiz
Moralista, racional, crítico e severo, O Juiz desqualifica as outras pessoas: só ele conhece o correto, as regras do jogo. Os “outros” deveriam ser desse ou daquele modo, se adaptar ao esquema que ele traçou. Tem grande capacidade de realização e busca a perfeição em tudo o que faz, mas esta não é fácil de alcançar – e então O Juiz fica com raiva. A raiva é a falha emocional do tipo 1, uma raiva interiorizada que se expressa por argumentos racionais.

2. O Ator
Delicado, mas manipulador, chega a representar para obter amor e atenção. É altruísta, mas às vezes ajuda as pessoas apenas para ser amado por elas. Sua personalidade se associa ao pecado do orgulho, que se expressa de maneira paradoxal: “Tenho muito para dar, só preciso que você me reconheça e me ame”. Vive em função das emoções alheias e por isso deixa de ser livre. 

3. O Imitador
Também chamado de Desempenhador, o tipo 3 de personalidade corresponde a um indivíduo eficiente, competitivo, obcecado pela aparência, que produz uma imagem ideal de si mesmo e tenta imitá-la a todo custo. Ele busca o sucesso não para se sentir realizado, mas para que os outros admirem seu “desempenho vitorioso”.  É um tipo bastante encontrado na atualidade, a pessoa que oculta suas emoções e esquece sua essência, seu ser real, para viver em função da máscara de eficiência que utiliza. A vaidade é a falha central a ser trabalhada pelo Imitador. 

4. O Artista
Criativo e melancólico, O Artista vive inconformado com o presente, sonhando com coisas ideais do passado ou do futuro. Tem uma consciência excessiva do seu valor e das suas emoções. Seu sofrimento é uma maneira de se opor ao mundo e também um instrumento de manipulação. Seu pecado é a inveja: a insatisfação de não receber o que imagina o que lhe é devido, de não ter o que os outros têm e de não ser feliz ou tão eficiente quanto eles aparentam ser.

5. O Caçador
Introvertido, solitário, desligado das pessoas e dos sentimentos, ele está sempre à espreita, observando de longe para pegar aquilo de que precisa. Desconfiado, não dá um passo sem refletir. Busca o conhecimento, mas vive no mundo das ideias como se este fosse o mundo real. Tem medo da vida. Seu pecado é a avareza: ele evita as pessoas e as coisas do mundo, pois acha que elas representam um risco. 

6. O Sonhador
O Sonhador está sempre imaginando o resultado das suas ações e vivências de maneira negativa, preocupado com o que “poderia acontecer”. Também chamado de Protetor, pois depende da estabilidade e dos valores do seu grupo e é muito leal em relação a ele. Trabalha bem em equipe, mas fica inseguro diante de situações novas e sem precedentes. Seu pecado é o medo imaginário, intelectualizado, que se manifesta pelo receio de errar. 

7. O Aventureiro
Alegre, otimista, sensual e infantil, o tipo número 7 gosta de desfrutar a vida sem qualquer compromisso. O trabalho, para ele, é um mal necessário para conseguir a liberdade de gozar a vida. Astuto e encantador, sabe enganar os outros de maneira inteligente, fazendo com que sintam bem. É um líder “simpático”, dissimulado. Seu pecado é a gula, a busca de todos os tipos de experiência, mas sempre com a impressão de que vai precisar de mais para ser feliz. 

8. O Guerreiro
Também conhecido como Chefe, o tipo 8, procura viver intensamente e exterioriza sua raiva e agressividade. Autoritário e combativo, busca o poder pelo poder, mas sabe assumir responsabilidades. Não quer depender dos outros; ao contrário, deseja sempre ter o controle das pessoas e situações. É protetor em relação aos mais fracos e luta pelo que considera justo, pois se vê como um adversário do sistema. Não se importa com a moral social. Para ele, a moral não passa de hipocrisia da sociedade, uma forma de controlar os fracos. 

9. O Negociador
O Negociador se desdobra e parece o mais generoso dos amigos, pois sempre tenta satisfazer os outros. Na verdade, quer que todos sejam felizes para que ele possa ficar tranquilo, sem problemas: é poderoso, mas reprime seu poder e sua energia para ficar em paz com o mundo, sem se comprometer com ninguém. Seu pecado é a preguiça, no sentido de que deseja evitar perturbações a qualquer preço. Por preguiça, ele esquece de si mesmo, é descuidado com suas coisas, não se ama e não consegue amar.

Personalidades em movimento

O eneagrama mostra como você pode se libertar dos seus vícios de conduta.

O primeiro passo para você usar o eneagrama a fim de modificar os padrões negativos da sua personalidade é identificar seu número, sua maneira de agir. Em alguns casos, o reconhecimento é imediato. Em outros, convém se analisar cuidadosamente e trocar opiniões com seus amigos mais sinceros. “A postura do corpo e a capacidade de demonstrar suas emoções também são indicadores valiosos”, conta Paterham. “Um tipo 8 grita a plenos pulmões, enquanto um tipo 4 é bem mais contido”. Ele acrescenta que um tipo de personalidade sofre sempre influência dos números adjacentes – um tipo oito pode ter aspectos dos tipos 7 e 9, por exemplo – e que, além disso, os tipos se movem continuamente, num padrão obsessivo que nos torna escravos da nossa conduta. “É preciso lutar para romper esse mecanismo, mas a ruptura abre um caminho para a plenitude da vida”. 

Paterham explica que essa ruptura é possível porque, afinal, os aspectos negativos dos tipos de personalidade não passam de distorções das qualidades positivas: por trás de cada vício existe uma virtude correspondente. Mais ainda, nenhuma pessoa é um número 1 ou qualquer outro número do eneagrama. Todos os tipos de personalidade são máscaras que ocultam nosso verdadeiro ser, mas que podem ser controladas por ele. Podemos alterar essas máscaras por meio de um processo de mudança interior, apontado pelo próprio eneagrama. 

Em outras palavras, existem padrões “automáticos” de comportamento, cristalizados desde a infância, que reforçam os aspectos negativos da nossa personalidade. Mas podemos desenvolver deliberadamente outros padrões e neutralizar esses aspectos negativos. As linhas do eneagrama indicam os caminhos para essas transformações – tanto as negativas quanto as positivas. 

Quando estamos muito tensos, nos movemos na direção da flecha que se origina no nosso número. Com isso assumimos as piores características do número para o qual a flecha aponta. 

Um exemplo é o movimento obsessivo do tipo 1, que tem sempre um esquema perfeito para tudo. Quando seu esquema não é aceito, ele acha que ninguém lhe dá o devido valor (número 4). Depois vai ao número 2 “ninguém me ama, estou sofrendo”. A seguir exterioriza a raiva (número 8), mas acha que se expôs demais e decide se isolar (número 5). Em seguida, adota uma máscara jovial (número 7), e quando está relaxado volta ao número 1.

Os números 2, 4, 5, 7 e 8 também se movem segundo esse esquema, enquanto os números 3, 6 e 9 se deslocam ao longo do triângulo do eneagrama. Quando não consegue a admiração dos outros, o tipo 3 fica confuso e assumo a inatividade do tipo 9, exterior ou interior (por exemplo, ignora suas falhas). O número 9 intensifica o seu lado negativo quando se move para o número 6 e alia a insegurança à falta de amor próprio. E o tipo 6, quando confrontado com a realidade hostil, pode assumir a agressividade do tipo 3 e atacar com vigor, decidido a acabar com a ameaça “de uma vez por todas”. 

Para quebrar esses padrões obsessivos cristalizados desde a infância, temos de seguir a direção contrária da flecha que aponta para o nosso número. Com isso, desenvolvemos as melhores qualidades do número da qual a flecha se origina. 

O tipo 1 neutraliza seu padrão obsessivo quando se move da direção da leveza do tipo 7. Deixa de se levar tanto a sério e ganha a serenidade necessária para perceber que os esquemas dos outros também são válidos. 

O tipo 2 precisa se mover deliberadamente na direção do número 4, ganhando consciência dos seus próprios sentimentos e do seu valor. Com isso, deixa de viver em função dos outros, do retorno emocional que eles podem lhe dar, e encontra na solidão o caminho para a autodescoberta e o crescimento espiritual.

O tipo 3 neutraliza seu padrão obsessivo quando deixa de se preocupar apenas com o seu próprio êxito e desenvolve o sentimento de proteção que o tipo 6 tem em relação ao grupo. Desse modo, encontra tempo para relacionamentos pessoais e passa a não esconder mais seus sentimentos e emoções. 

O tipo 4 precisa seguir na direção das qualidades positivas do Juiz, que é um realizador por excelência. Com isso, o tipo 4 se envolve com o mundo material e acalma o turbilhão interior, liberando energias antes aprisionadas por uma multidão de sentimentos contraditórios. 

O tipo 5 neutraliza seus traços negativos quando segue na direção do número 8 e passa a se envolver mais com o mundo e as pessoas. Ele deixa de viver apenas no plano das ideias e transforma seu conhecimento em sabedoria baseada na experiência e em trocas com os outros. 

O tipo 6 deve se mover em direção ao número 9 e trocar seu medo pela coragem de estar em paz consigo mesmo, consciente do seu próprio poder. Passa então a confiar nos seus talentos, nos seus pensamentos e nas suas opiniões. E descobre que a fonte maior da segurança sempre esteve no seu interior, na centelha divina do seu verdadeiro ser. 

O tipo 7 precisa seguir na direção do número 5, descobrir as virtudes da sobriedade e da solidão e aprender a refletir sobre todos os aspectos da realidade. Quando sua jovialidade se alia à coragem de aceitar as emoções dolorosas que antes ele fingia não ver, ele amadurece e encontra o equilíbrio. 

O tipo 8 precisa se mover na direção do número 2, cujas qualidades mais positivas são a delicadeza e a dedicação ao próximo. Quando a força do Guerreiro se mescla à delicadeza e à compaixão, a ênfase é deslocada da busca de justiça individual para o bem-estar coletivo, e o realizador agressivo dá lugar a uma pessoa de intensa espiritualidade, um doador de vida. 

O tipo9 deve se mover em direção ao tipo 3 e trocar a indolência pela capacidade de fazer com amor. Ele aprende a lidar com as pressões exteriores, a definir e a alcançar objetivos. Com isso, reforça sua autoestima e se torna capaz de amar.

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